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"No Brasil, em se plantando",... não dará certo

Uma doação de plantas irregular e o SUS em risco. Uma história de múltiplas irresponsabilidades.

Rommel Alexandre Sauerbronn da Cunha, engenheiro agrônomo

 

Carlos Nobre, importante nome da ciência nacional, é um dos críticos da miopia nacional contida no adágio “No Brasil, onde se planta tudo dá”. Basta trazer de fora e jogar na terra, vai dar certo. Seguimos ignorando, histórica e culturalmente, as questões inerentes à biodiversidade e as leis.



O Sr. Rommel (foto), doou mudas de Melaleuca Alternifolia (fonte do óleo de melaleuca) para a farmacinha do SUS no Rio de Janeiro. Ele se refere ao programa “Farmácia Viva” do Ministério da Saúde, que recebe atenção especial do setor de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), coordenado por Maria Behrens com quem falei recentemente por videoconferência sobre o caso.


Acontece que Rommel, não é um produtor de mudas e sementes cadastrado no RENASEM (Registro Nacional de Sementes e Mudas) do MAPA, o que torna seu comércio e doação irregular; a melaleuca alternifólia não é uma espécie domesticada no país – ao contrário, trata-se de uma perigosa planta invasora que destrói o bioma original local; e, finalmente, a empresa do Sr. Rommel também não está cadastrada no Estado de São Paulo para qualquer venda.


O óleo de melaleuca vendido por ele tem apenas 3 meses de validade, uma aberração se comparado ao produzido pela ATTIA (Associação Australiana de Produtores de TTO) dura 1 ano após a abertura do frasco e 2 anos, caso se conserve fechado. Podemos concluir que o óleo essencial estraído dessas plantas e enviado ao SUS será de baixa qualidade.


Como nós sabemos disso? A GermXit é uma empresa credenciada pela ATTIA. Naturens-GermXit comercializa um produto certificado com boas práticas e é reconhecido por possuir a melhor qualidade no mundo. Os custos reais de manutenção de uma plantação de melaleuca tornam inviável “doações online”.


Completando esse quadro, temos a pesquisa da EMBRAPA, que concluiu a qualidade de amostras de plantas nativas e exóticas, obtidas por extrativismo e por cultivo indicaram altos níveis de contaminação microbiana e baixos teores de princípios ativos. Portanto, a qualidade do produto final ainda é baixa.


Então, assistir uma doação irregular, com plantas possivelmente contaminadas para produzir óleo sem qualidade para o SUS, a “farmacinha” é demais, é uma afronta à população e a todos nós.


Como o quinto maior consumidor mundial de remédios, o Brasil tem desenvolvido poucos medicamentos. E quando nos lançamos a isso, com baixo custo, o que vemos é uma série de erros primários e atos irregulares no país em que os titulares de cargos públicos dificilmente serão responsabilizados pelos resultados.


Nesse caso, no Brasil, onde quer que se plante melaleuca dará errado. O bioma será destruído, o SUS será mal servido e a população... bem, nós sabemos como andam as coisas aqui. Continuaremos amanhã.

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